EXÉRCITO TEME COBIÇA DE FORÇAS ESTRANGEIRA NA AMAZÔNIA

Por Angus MacSwan

MANAUS (Reuters) - Narcotraficantes, madeireiros, garimpeiros, grileiros e guerrilheiros. O Exército brasileiro tem muito trabalho na Amazônia, uma região maior do que a Europa Ocidental, com 11 mil quilômetros de fronteiras porosas com sete países.

Mas a principal preocupação dos estrategistas brasileiros é de que um dia eles tenham de enfrentar uma potência estrangeira pelo controle da Amazônia.

"As ameaças hoje são diversas. Não existe uma ameaça como no passado, quando existia a Guerra Fria. Antigamente existia a ameaça do comunismo", disse o general Cláudio Barbosa de Figueiredo, comandante do Exército para a Amazônia.

Segundo o general, para o estudo da defesa da Amazônia, considera-se "um poder militar superior ao nosso, e nós já temos a estratégia para resolver". Além disso, afirmou, "outra grande ameaça que nós consideramos é o vazio de poder".

Desde o fim do regime militar (1964-85), a defesa da Amazônia se tornou prioridade para o Exército brasileiro. Nos últimos anos, o país reforçou seu contingente na região para 22 mil soldados e planeja ter 26 mil até o final de 2006, segundo Figueiredo.

Cerca de 25 pelotões especiais de fronteira, com cerca de 70 homens cada, estão em posições remotas da região. A área é coberta pelo Sivam (Sistema Integrado de Vigilância da Amazônia), uma rede de radares, computadores e aviões que observa pistas de pouso clandestinas, incursões e danos ambientais.

A ameaça que passa pela cabeça de muitos brasileiros é de que estrangeiros cobicem a Amazônia, um temor que se agrava sempre que um político de fora fala sobre a floresta e suas águas como um recurso internacional. O ex-comissário do Comércio da União Européia Pascal Lamy, atualmente candidato a chefia a Organização Mundial do Comércio (OMC), chegou a propor em fevereiro que a Amazônia deveria ser administrada pela comunidade internacional, uma proposta que provocou reação do governo brasileiro.

Em novembro, o Brasil montou um grande exercício militar na Amazônia, a Operação Ajuricaba, da qual participaram 3.000 homens, 35 aviões e 170 barcos. O "inimigo" era uma força estrangeira.

"As Forças Armadas brasileiras, que fazem planos para uma hipotética guerra na Amazônia, prevêem que a região se transforme em um novo Vietnã", escreveu o jornal Correio Braziliense. Diplomatas também citaram com interesse o fato de que o Vietnã acaba de nomear um adido militar para sua embaixada em Brasília.

PREOCUPAÇÃO COM POTÊNCIAS ESTRANGEIRAS

A guerra entre a guerrilha comunista Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o governo da Colômbia, que se agravou devido ao Plano Colômbia, patrocinado pelos EUA, sempre pode se espalhar para o Brasil.

Traficantes da Colômbia, do Peru e da Bolívia exportam sua mercadoria para os consumidores das cidades brasileiras e como escala na venda para a Europa. Imigrantes cruzam clandestinamente a fronteira com a Bolívia, e madeireiros peruanos devastam a selva.

No interior da região, a extração ilegal de madeira e a exploração das terras leva a uma destruição alarmante --uma área do tamanho de Sergipe foi devastada no ano passado. As disputas fundiárias levam a frequentes derramamentos de sangue.

Figueiredo, um homem educado, de cabelos grisalhos, disse que não houve confrontos recentes na fronteira com a Colômbia e acredita que a situação está controlada. "Logicamente estamos atentos para a divisa colombiana, mas nós entendemos que elas (as Farc) não querem abrir mais uma frente de combate."

Ele disse que, em algumas esferas, o principal papel do Exército é apoiar as autoridades civis. "Na questão das drogas, que é missão da Polícia Federal, apuramos junto com eles dentro da nossa margem. A mesma coisa fazemos com o Ibama para que eles possam deter essas madereiras ilegais. Fornecemos apoio logístico, alimentação e segurança."

Os Estados Unidos querem que os Exércitos latino-americanos se envolvam mais na guerra às drogas. Mas na América Latina, que passou por tantos regimes militares, é delicado discutir até que ponto militares podem substituir a polícia.

Da mesma forma, Washington quer que os soldados se empenhem mais no combate ao terrorismo. Mas, em um encontro de ministros da Defesa das Américas, ocorrido em novembro em Manaus, o vice-presidente e ministro da Defesa do Brasil, José Alencar, disse ao norte-americano Donald Rumsfeld que combater a pobreza é uma prioridade mais importante.

"Não temos terrorismo aqui e nem na nossa fronteira. Os norte-americanos consideram tráfico como terrorismo, mas eles fazem o terrorismo deles lá dentro da Colômbia", afirmou Figueiredo à Reuters.

Questionado sobre a internacionalização da Amazônia, Figueiredo disse: "Isso pode ser uma preocupação que nos leva a estratégias de defesa, não só dos Estados Unidos, mas também da Europa. Devemos estar precavidos."

Um porta-voz do Comando Sul dos EUA, que abrange a América Latina, disse que o Brasil tem todo direito de planejar a defesa do seu território, mas que os Estados Unidos não representam uma ameaça.

"Acho seguro dizer no Comando Sul que não mantemos planos de contingência para nada que tenha a ver com o Brasil", disse o tenente-coronel David McWilliams, por telefone, de Miami. A relação entre os militares dos dois países é excelente, segundo ele.

Eduardo Gamarra, diretor de Estudos Latino-Americanos na Universidade Internacional da Flórida, disse também que a cooperação militar entre os dois países é provavelmente a maior em vários anos. Mas admite que "estamos ouvindo rumores de que os EUA vão ocupar a Amazônia por causa da água, para conter as drogas".

David Cleary, da entidade ambientalista Nature Conservancy, em Belém, afirmou que os militares acreditam genuinamente que há uma ameaça e que ela é principalmente norte-americana. "A ameaça do dia-a-dia vem da Colômbia e do Peru, não dos EUA", afirmou.




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